Viaje também “Nas Montanhas da Loucura e Outras Histórias de Terror”, de H. P. Lovecraft

Ainda lembro o dia que ouvi falar de Lovecraft pela primeira vez: “Ele é superestimado e não tenho dúvida que prefiro King e Poe a Lovecraft” – foi o que ouvi. Não satisfeito em absorver opiniões prontas acerca de algo, li alguns contos do citado autor e gostei. Dias depois, iniciei a leitura de Nas Montanhas da Loucura e Outras Histórias de Terror – livro que, ao fim da leitura, adorei. Foi a partir dessa obra que compreendi que Lovecraft não é uma versão póstuma e deturpada de Poe, apesar das influências dele nas suas obras, tampouco um antecessor de King no segmento que fora ultrapassado, afinal, nas palavras do próprio Stephen King: “Não há dúvida de que H.P. Lovecraft ainda é o maior contista de horror clássico do século XX a ser superado”. Por isso e pela singularidade de Lovecraft mal-compreendida, os apresentarei este livro formado apenas por quatro contos. Espero que gostem da obra tanto quanto eu.

O primeiro conto é nada mais nada menos que Nas Montanhas da Loucura, certamente um dos textos mais conhecidos de Lovecraft. Nesse conto, o maior do livro (cento e algumas páginas), o autor explora na paisagem branca e gelada da Antártica, o desconhecido, lugares ocultos e inexplorados pela ciência e, em meio a uma atmosfera de horror e suspense, até mesmo forças alienígenas – ou não, revela, ao longo de uma escrita que muitos leitores julgam enfadonha em virtude de alguns termos técnicos, nessa expedição um tanto “diferente” – que volta e meia atormenta a sanidade de alguns dos viajantes e até de alguns cães – o quanto sua criatividade pode ser versátil e ir além das expectativas do leitor. Nesse conto, Lovecraft usa um método de descrição que alguns ditam como a fronteira entre a descrição ficcional e a descrição ciência – algo também usado no próximo texto.

Narrado em primeira pessoa, o conto que dá sequência ao livro é A Casa Maldita – que, certamente, é um título bem direto. Digo isso, pois julgo o personagem principal desse conto como a residência com fama de amaldiçoada da Rua Benefit Street, em Providence. O narrador e seu tio Whipple, consumidos pela curiosidade, adentram no local e decidem que aquele mal encarnado deveria, de uma forma ou de outra, sair dali. Bancam os heróis e mergulhados num ambiente com fortes referências de Poe fazem – ou assistem se fazer – de uma missão inventada, um pesadelo. Aos poucos, você adentra no texto sem sequer perceber.

Os Sonhos na Casa da Bruxa sobrenatural é o título do terceiro conto, que é no mínimo exótico. O protagonista é Walter Gilman, um estudante de matemática, que busca sanar suas curiosidades acerca de uma lenda local em Arkham que diz respeito a uma bruxa. Cheio de coragem – ou loucura – Walter adentra no oculto e anseia conhecimentos sobre Keziah Mazon (uma bruxa, acredito ser importante ressaltar) e até mesmo sobre a quarta dimensão. O texto – sem dúvida – é tão complexo e atrativo quanto Nas Montanhas da Loucura e ao fim da leitura nos faz refletir acerca de tudo o que existe ao nosso redor e não nos alcança a vista. Foi o conto que mais gostei.

Por fim, há O Depoimento de Randolph Carter, que é o menor dos quatro contos do livro. O citado possui um teor cinematográfico que talvez, apenas talvez, incomode alguns leitores; o fato é que a descrição é tão direta que nos vemos, por vezes, “assistindo” e não lendo um conto. É notório, além disso, uma forte nuança do que seria o Terror Fantástico, segmento no qual Lovecraft influi nos produtores posteriores. Enquanto a história em si (que julgo ser o que realmente importa), O Depoimento de Randolph Carter é um relato acerca de um caso um tanto enigmático sobre um “desaparecimento” (prefiro usar esse termo) num cemitério. Julgo um contundente relato que, por ser o que é, transfere ao leitor um pouco do que o narrador sente. Indico, pois é curto e repleto do melhor horror que Lovecraft produziu em vida.

A escrita pode não ser tão fluída como alguns acreditam que deveria ser, todavia o senso criativo é inquestionavelmente um ponto alto na sua obra. No mais, acredito que se gostou da descrição de alguns dos contos se surpreenderá com o quanto um escritor considerado “ruim” pela crítica pode contar com eficácia um pouco do horror, terror e suspense que influenciou muitos dos grandes autores do século XX. Boa leitura – independentemente se lerá os quatro ou apenas um dos contos.

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